sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Corpos em Brasa

É com crescente prazer que vou delineando o teu corpo, perdendo-me por todas as curvas e rectas tão perfeitas que só uma natureza transcendente saberia explicar com exactidão.

Gosto de sentir toda uma tensão quando o faço sem te tocar, é simplesmente aliciante ler os sinais que deixam perceber uma mistura de raiva impaciente e desejo de aproximação gritante que acompanha a trajectória do movimento.

       Perdem-se os medos, esquecemo-nos de quem somos, ou pelo menos dos aspectos mais redondantes e superficiais, e toda a nossa essência revela-se...
       Como se até então estivéssemos acorrentados, quais imóveis conformistas que, no segundo em que sentem o tilintar do metal figurativo a encontrar o chão, começam um galope desenfreado que apenas usa como combustível a ambição pulsante de experienciar aquela outra dimensão que está incompreensivelmente longe do nosso alcance em circunstâncias banais. Esta é a única porta que nos transporta para esse outro mundo, onde a atmosfera, como a conhecemos, é devorada para dar lugar a um outro clima, fervoroso e mundano, captado por cada um dos inúmeros poros da nossa pele em fogo.

       A iluminação deixou de ser artificial, só o brilho dos nossos olhos pode descrever o quão celestial pode ser o arder daquela chama que parece não precisar de oxigénio para se manter viva, teimando em ser imortal.
       O galope metamorfoseia o bater dos cascos em sussurros, acompanhados do som intermitente do jogo viciado dos lábios que teimam em adivinhar as jogadas do seu cúmplice.

       Este mundo libertino e virtuoso faz-nos perder toda a noção do tempo e do espaço. A verdade é que as leis que condicionam esta dimensão esplêndida são as da natureza, e como tal ditam um início e um fim.
       Não obstante, um fim pode ser um simples impulso.
       E os ímpetos, por vezes, são tiros no escuro, percebidos quando o nosso próprio revolver já está a fumegar...

3 comentários:

  1. muito mesmo. e o pior é que eu não queria sentir isto.

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  2. fds, pêdro, escreves muito bem. Já não tinha noção disso! Adorei, mesmo! Continua :D

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  3. Muito bem!
    Força na caneta!
    Vocação para a escrita e talento não te faltam.
    Escrever aprende-se, escrevendo.
    Para além da chamada "inspiração",há só que dar-lhe mais consistência com o trabalho continuado da escrita.
    Um ABRAÇO do tio Abel.
    Tudo de bom!

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