Porquê esta amargura em sentir a perda tardia? Queria ter sentido isto na hora certa, em cima do acontecimento, não agora.
Há um qualquer desacoplamento entre acontecimentos e sentimentos, mas porquê?
Tudo porque foram embora algumas pessoas que considerava relativamente importantes na minha vida. A despedida teve um aviso prévio, mas não houve tempo de reflexão sobre o adeus. Presenciei lágrimas, olhares tristes e gestos nervosos. Senti os abraços apertarem-se, sendo parte dessa força conjunta que, aparentemente, foi sentida mas na realidade foi involuntariamente fingida do meu lado. Porque, em todo esse encadeamento de expressões, eu não senti o que deveria ter sentido.
Agora (horas depois) estão cá dentro a fervilhar todos os fragmentos que compõem a importância desses laços. Sinto a falta das suas presenças, dos seus sorrisos, do calor de cada uma dessas amizades, as suas vozes ruidosamente alegres. Tudo se fez sentir agora, como o disparo implacável de um revólver que, desde o instante do estalido do gatilho até ao próprio impacto da bala, nos vai tornando gradualmente frágeis, acabando por nos ferir violentamente.
Resta-me acreditar que a vida nos vai dar a possibilidade da reunião improvável.
Até lá, a ferida acabará lentamente por sarar e a cicatriz será a tatuagem de uma recordação...

Sem comentários:
Enviar um comentário